June 11, 2013
June 11, 2013
May 22, 2013

magik markers / bonfire

May 22, 2013

bolas

Bolas

Para a Alma do Negócio/SA

Leandro preocupado não viu as pessoas dentro da sala de espera. Não viu a senhora com óculos fumês, nem o holocausto bucal do rapaz ao celular.  Não reparou a criança brincando com o filtro de água morna.

O médico não poderia atendê-lo. O médico Daniel estava com a agenda completa para aquele dia. Um drama para Leandro que já notava uma dificuldade para caminhar.

Leandro perguntou para a recepcionista sobre um possível encaixe. A recepcionista chamada Sandra disse que hoje não. Sandra parecia ter feito escova nos cabelos há quatro dias e desde então nada de banho. Criando uma tensão inusitada na sua imagem, realmente preocupada com a figura, mas e a higiene, Sandra? Complicado.

Suando frio Leandro sentou-se na poltrona de almofadas vinho, e sentiu uma pontada de dor nos testículos, estranhamente refletida no anus após dois ou três segundos.

A velha prestava atenção na tevê sem som. A imagem de uma senhora loira cozinhando com luvas de borracha. Uma espécie de bicho de espuma parecia representar um espírito sabotador sempre interferindo, talvez, nas ações. Aparecia uma tigela de grãos, o bicho de espuma aparecia, aparentemente movimentando a bocarra. A senhora loira de luvas falava, o bicho a cortava, ao menos a imagem dela. Era difícil saber o que acontecia além da culinária e uma possível explicação de algo fundamental para o bom andamento da comida, do programa ou da vida, algo que parecia importante para a senhora loira. Leandro prestou atenção até ser chamado por Sandra.

Sandra revelou ter falado com o médico Daniel e Daniel mandou perguntar se era urgente, de fato era, e do que se tratava. Leandro prontamente disse que estava com um problema, uma dor, que não podia trabalhar. Sandra fez uma cara de ah então é atestado que o senhor quer. E Leandro ficou sério entendendo o que ela havia entendido.

Mas o que aconteceu, onde é a dor, Sandra, a recepcionista, perguntou. Leandro aproximou-se do balcão inconscientemente para dizer que estava com uma dor no saco, nas bolas, atentando em não sorrir e fazer uma cara de dor séria, para não soar sacana. Mas o senhor caiu, o que aconteceu. Foi um acidente, sabe como é. Se Leandro aludisse apenas ao acidente não haveria o que veio a ser o problema do dia na clínica, segundo Sandra. A frase, sabe como é, bem como a frase se é que você me entende, acaba com muita coisa. Disso Leandro não sabia.

Não, não sei como é, Sandra falou levantando a sobrancelha que, meu deus, era uma linha curva fina, que significava indignação. Que significava eu tenho os meus direitos. Que significava me respeite eu estou trabalhando. Que significava que otário. Que significava se eu quiser eu te fodo seu vagabundo preguiço. Que significava olha aqui, agora você não será atendido e o meu maior prazer será vê-lo sair pela porta andando com as pernas abertas seu veado.

Toma o teu RG, Sandra falou. Ao colocar a mão direita sobre o balcão de fórmica notou os dedos secos, ossos saltados, o braço mais fino que o punho, uma impressão de caroços na extensão dos dedos, pareciam tripas. Perguntou se poderia usar o banheiro e Sandra lhe indicou a direção com um movimento de mão.

Ao ver-se no espelho notou a súbita magreza. Pela manhã Leandro não estava tão magro. Quando acordou e resolveu não ir ao trabalho por conta da dor nos testículos.  Quando sentou na cama e a capa de gordura sobre o abdômen dobrou-se em três faixas de banha, mas agora notava os ossos por toda parte. E uma gosma na boca fazia às vezes de saliva. Apertou o cinto e saiu do banheiro direto até o bebedouro onde a criança armava um festival de copos plásticos. Ao andar notou a leveza das pernas que impossibilitava a linha reta, quase sempre o caminho mais curto às coisas, de modo que dobrava os joelhos levantando-os além do natural. Todos da sala olharam para a figura de Leandro. O rapaz com a boca podre parou de dedilhar o celular. Uma senhora disse para o Pedrinho deixar o moço beber água, coisa que Pedrinho fez voltando sua atenção para uma fileira de cadeiras de plástico presas a uma trave de ferro. Leandro achou feio o copo de plástico fino entre os longos dedos magros. Bebeu a água fazendo um barulho estranho com os lábios.

Sandra falava ao telefone quando Leandro sentou-se na poltrona vinho. Sandra falava sobre ter almoçado ontem com alguém que iria morar no interior a partir do próximo mês. Leandro descansou as mãos sobre os joelhos e seus braços pareciam mais longos. Sentiu o tórax curvado, e pensava em expressões de perplexidade como caralho, meu deus, que porra é essa etc. Olhou fixamente para o calcanhar rachado da senhora com óculos fumês até ficar envergonhado. Sentia-se cansado quando virou o rosto para Sandra, que o encarou meio que balançando um ombro dizendo que hoje não haveria atendimento para encaixe.

Leandro tirou o celular do bolso e quase não teve forças para mudar uma chave lateral que destravaria as teclas. Com o sucesso ligou para o número de Manu, a foto de Manu no celular de Leandro não a favorecia. A foto de Manu era uma aberração de luminosidade e roupas justas. Manu atendeu mandando Leandro falar. Leandro perguntou se estava tudo bem. Manu disse que estava trabalhando. Leandro achou bom e disse o que achava. Manu perguntou o que era. Leandro disse que encontrara a mãe de Manu ontem no bar Cidade de Moscou, e que dormiram juntos, que dormir era modo de dizer, que ela fez tudo que Manu costuma fazer porque ele, Leandro, pediu para que ela fizesse, que inclusive, ou, aliás, ele neste exato instante estava no hospital para tratar uma dor nos testículos de tanto que a mãe de Manu estocou sentando sobre seu penis das diversas maneiras que Manu bem sabe quais são. Manu o chamou de filho da puta e desligou o telefone.

Leandro levantou-se sentindo um tremor em toda a carne, dirigiu-se ao balcão e pediu um papelzinho e uma caneta para Sandra. Sandra entregou-lhe um bloco minúsculo de folhas brancas com uma das laterais com cola vermelha. Sandra parecia ocupada, mas seria difícil explicar o que estava fazendo além de movimentar os braços e respirar. Leandro riscou um enorme penis com traços vacilantes para dar a ideia de que estava latejando, dobrou em quatro fazendo um quadrado e entregou a caneta, o bloco de papel e o papel dobrado para Sandra. Leandro dirigiu-se à saída, ao cruzar a grande porta de vidro escuro foi cegado pelo sol.

May 21, 2013

“eu entendi que os mortos não são mais nada.

a dor o virou do avesso, orfeu.”

May 21, 2013
mother’s grave

“if you love her, i’m happy, soni love hereverything you need, anything, i will help you. you understand? yes, mom.(…)… i need some money…how much?for the gasolinehow much?5all rightso, i’m going to yes, go, but stop dressing like a homeless. take a look at this shirt, oh.i like this holesok, bye son. kiss for aline.bye”
circa 2010

mother’s grave

“if you love her, i’m happy, son
i love her
everything you need, anything, i will help you. you understand?
yes, mom.
(…)
… i need some money…
how much?
for the gasoline
how much?
5
all right
so, i’m going to
yes, go, but stop dressing like a homeless. take a look at this shirt, oh.
i like this holes
ok, bye son. kiss for aline.
bye”

circa 2010

May 19, 2013   1 note
C

C

May 13, 2013
1996-2013

1996-2013

May 11, 2013
May 10, 2013

Cosmos

havia a rua e amigos que pareciam morros na paisagem
permanecemos deitados em tacos de aluguel
por parte endossados pelo vinho
por parte amarelados de fumo

um de nós sabia de sentimentos estranhos
em que tudo ficava incerto e não se podia dizer mais nada
outro tinha namoradas que o prejudicavam e seus olhos eram aflitos
outra comia frutas difíceis de descascar e tinha aquele cheiro nas mãos
outro lia besteira quando lia coisas sérias
um outro era um cachorro com todos

em fins de tardes num mês longo de julho
já estávamos bêbados numa esquina
as cadeiras bambas
eu via o sol se pondo incansável
e pela noite éramos menos abatidos

cheios de maconha
com um humor peculiar
elétricos cochichávamos em nós mesmos
depois íamos embora