October 20, 2011   2 notes

Clube

Na piscina com os dentes frontais esmigalhados pela borda, vi meu sangue em linhas, filetes, teia, flutuar feito um escarro. O nome disso poderia ser tragédia anunciada, espiritismo de porco. Porque se pode escolher muito pouco. São os entraves lógicos. Por exemplo, a noite subtraindo o dia enquanto uma selva de sorrisos de bocas freqüenta os ambientes mais iluminados da rua. É agora, enquanto conto. O veneno nesses casos lógicos é se permitir lesado, o mesmo que estar disposto, em alvo, à memória. Não há muita inteligência em ir ao perigo, muito menos quando o cretinismo assola o teu sangue, à imagem de um rio morto. É um trabalho de alçapão, a memória. É como nunca fazer o possível sobre uma urgência qualquer da qual depende parte dos seus próximos dias. É como deteriorar a carcaça com uma alimentação suja e porca que te faz dormir como quem desiste. Eu identifiquei o meu sangue por toda parte, com as crianças saindo apressadas da água, e uma senhora de azul pedia pelo amor de deus para o Julinho sair da água imediatamente. Fiquei vidrado no copo de coca com rodelas de limão e gelo que ela trazia junto à barriga de burro. Se você já viu um burro sabe do que estou falando. Era a dona Célia, depois eu soube. Depois de muito talco e amenidades na enfermaria. Eu não tinha aids, eu tinha um pouco de hanseníase, muito bem disfarçada no exame médico do clube. Mas lepra não pega em crianças, eu li a Bíblia. Pupilas de dragão, não há por onde. O salva-vidas trouxe-me uma toalha branca , e a pressão da sua mão antes da toalha contra a minha boca me fez perceber como se constrói uma história. Fiquei em silêncio com os olhos bem abertos, tentei rir mas doeu como um rasgo. As crianças me cercaram, algumas com as mãos nas cinturas, molhadas, torcendo as sobrancelhas, entortando a cabeça para ver melhor. Gesticulavam apontando na altura dos dentes. Tapavam a boca, chacoalhavam as mãos com os dedos moles. Outras pulavam como pagãos num sacrifício com sangue e fogo. Uma, pude ver, aproveitou o recesso da agitação aquática para tomar yakult e comer bolachas recheadas. O Julinho deitou perto da mamãe. Acontecia alguma coisa ruim comigo e o registro das dores que eu sentia podia transformar-se, naquela hora, num tipo de caldo primordial, alimento para muitas das criancinhas que dividiram a piscina comigo durante aquela manhã de quarta-feira. Conto porque é lógico. Fiquei três horas deitado numa maca, o bastante para crer ter perdido a capacidade da fala. Uma enfermeira inepta para a profissão ignorou completamente a minha personalidade, o fato de estar encarnado ali e possuir um nome e ter perdido três dentes e meio em cima e dois embaixo, totalizando cinco dentes e meio que não voltariam mais. Pelos gritos que comecei a ouvir duas horas depois do acidente, algumas crianças encontraram os dentes inteiros e pedaços dentro da piscina. O próprio Julinho chorou por não ter encontrado nada. Chorou gritando até vomitar o antepasto viscoso cheio de água da piscina, então dona Célia veio propor que eu doasse um dente, apenas um, ou qualquer coisa minha que o valha, ao Julinho, coisa de criança, porque a maioria das outras estavam alucinadas com minhas referencias materiais, psicológicas ou espirituais, algumas encenavam o acidente e tudo o que aconteceu depois, outras se faziam respeitar e respondiam pelo meu nome, quando não uma menor que as outras, tratou assumir meus trejeitos de olhar, andar e eventual gagueira, o que sabia fazer perfeitamente. Sorri com as gengivas machucadas, com uma vulva aberta no lábio superior. Dona Célia fez uma enorme cara de nojo, e virou o rosto do Julinho empurrando-o com a barrigona para fora da salinha improvisada de enfermaria, branca e azul, como tudo o mais no clube Sol do Tito. A enfermeira me ofereceu quarenta gotas de dipirona, aceitei, amém mas caprichei no chorinho quando a massa branca de avental virou as costas. Dormi feito um lince na pradaria antes de sentir-me cutucado na panturrilha. Um garoto muito feio disse estar me cutucando há horas. Respondi que não sentia nada em alguns pontos da pele das costas. Ele achou o máximo e disse chamar-se Fabio. Perguntou o que eu fiz para não sentir dores nas costas porque ele mesmo adoraria a armadura, disse a ele que freqüentei muitos banheiros públicos nos anos noventa, é o que a gente ganha. Percebi que o garoto era um tipo de informante cuidadosamente escolhido para aquele interrogatório, estava a serviço da legião que por àquela hora já deveria estar tirando o cloro do corpo com os olhinhos vermelhos, prontos para partir para os videogames nas casas com cheiro de pão de forma tostado. De certo que alguns estariam sonolentos e meio sonâmbulos enrolados em toalhas com pequenos capuzes com orelhas de gato ou chifres, o que dá o mesmo efeito. Eu conto porque parecia lógico. Já sentia meu rosto inteiro formigando, latejando e presumia o hematoma e inchaço que me desfiguravam. Meus lábios pesavam feito um punho morto e tanto fazia para o garoto aquele horror. Estava treinado pelos outros. Acreditei que parte daquilo tudo era orquestrada pela dona Célia e a enfermeira mas desisti dessa linha de ação quando o garoto perguntou o meu nome de batismo, demonstrando que sabia que o nome escrito na minha ficha, e em todas as fichas desde cinco anos atrás não era o meu nome de batismo. Disse, Celso Correa Soares, minha condição pronunciou os ésses de maneira sofrível. O garoto com a face séria. Eu via meio de lado porque estava quase totalmente virado para a parede, a posição que mais gosto para dormir. Do nada o garoto sorriu e lançou contra o meu rim um estalado tapa com força desgraçadamente superior ao que esperava de uma criança cansada de nadar. Um tapa no rim, bem onde não tenho lepra. Bem onde dói por minutos a fio. Eu soprei baixinho e disse que era um desgraçado de capeta, mas o d e o p machucaram muito a minha boca. Cuspi sangue com saliva na parede crocante. Quando a enfermeira voltou já estava à paisana, pronta para fechar tudo e ir para a Zona Leste. Eu de sunga. Inchado. Lacrimejava de dor na boca, a enfermeira à paisana sentiu pena da figura que eu representava. Caridosa. Senti fúria e falei cuspindo sem o controle da bocona. Eu era uma pessoa diferente com aquele ferimento. Logicamente não fazia nenhum sentido tratar a enfermeira mal, posto que sem o uniforme a pobre se mostrou tão amigável e sedutora, talvez. Saímos juntos da salinha, ela disse que tinha uma coisa muito especial me esperando lá fora. Caminhamos, eu descalço, até o estacionamento de cascalho e areia de construção. Meus pés doíam e não havia mais nenhuma luz no céu. Um poste com luz fraca ajudava a distinguir o meu carro encostado a um barranco com dois tocos enormes ao lado da porta do passageiro. Tocos cozidos, enzinabrados, como se saídos de alguma encosta na Normandia, carregados de fungos. Divisei apertando os olhos contra o meu próprio rosto, a enfermeira à paisana emudecida me constrangia como um incêndio. Basicamente não fazia sentido algum pensar no que pensei àquele momento, mas eu estava envelhecendo ali. Lembrava-me da segunda vez que senti o envelhecimento dentro do corpo, quando contemplei um cachorro cheio de carrapatos gordos e marrons. Eu estava envelhecendo progressivamente no caminho de volta ao carro sem nenhuma curiosidade acerca do que me esperava de tão especial. Eu estava envelhecendo sem nenhuma promessa. A enfermeira segurou meu dedo polegar, olhou para o meu peito desnudo e disse algo como “aproveita”. Senti as feridas com a língua de lixa que o cigarro me dera. Que lindo. Continuei andando, no meu carro Julinho e dona Célia me esperavam para me levarem para casa. Relutei, orei, não eram tocos, disse que era impossível. Julinho chorou. Eu vomitei com as mãos no joelho diante de tanto e inconcebível transtorno. Com um frio de sunga. Com um gosto de dipirona na boca. Com um tremor por causa dos espasmos do vômito. Não sou um entusiasta da burrice, mas se conto agora é porque me parece lógico, e nenhuma luz faz sombra à 45º aqui neste estabelecimento respeitável onde por hora me abrigo. Mas o caso é que o Julinho, filho de dona Célia, era muito parecido com o Fabio. Aceitei o convite, fui com eles.

October 20, 2011   2 notes

Amputação

Como você consegue? (Com os olhinhos de choro). A capa arrastando no chão, com as pontas pretas, afinal é o chão de São Paulo com chuva, os caldos nodosos que nunca deixam de ser manchas nas coisas. (Nesta época eu não tinha um nome que fosse meu. É lógico que tinha o nome dado por outras pessoas. Eu varria os cabelos num salão. Eu via através dos vidros com os olhos embaçados, achando sensual. Deixava-me apalpar pelo lavador de cabelos. Mais velho). Perdeu a cabeça quando achei um horror o labirinto de sentimentos que esmagava a sua família. Como você consegue? Com os olhinhos tremendo. (No último dia da minha peça no salão. Antes eu tinha comprado uma faca. No último dia da minha peça no salão todos me chamavam de Henriquê, até a velha sentada na cadeira de lavar cabelos com uma toalha no pescoço me chamou de Henriquê antes de pedir uma revista toda azulada. O lavador de cabelos, respondia por mim, fez uma careta como um cúmplice contra a velha. Enojei-me por essa companhia. Eu já tinha a faca em algum lugar do salão e havia sido um universitário. O lavador falou para a velha alguma coisa sobre se atrasar muito e era sobre mim. O alarme na cabeça com as mulheres desmaiando, a gritaria. Fui ao banheiro para lavar o rosto, era o lugar bom do salão). Noventa pessoas comendo uma polenta não muito grande, dentre, dois chineses, um gordo que parecia um band-aid sujo, dois pm’s fêmeas, um morcegão, olhos postiços. Alguém ali passou a mão na cabeça de todo mundo como se mãe fosse tudo igual, falei para desabafar sobre ser assim mesmo e ser culpado enquanto o chinês do meio personificava um assunto sobre lavar uma gaiola há dez anos, com água limpa, fazendo uma papa para o pássaro, igual a polenta que alguns ficariam sem comer por descuido. Imperdoável. O chinês da ponta ficando quieto e eu percebendo que aconteceria algo desproporcional à vontade de todos. Era fome. Presos. Eu preso a todos eles, cada um preso a todos nós. O chinês meditando morte, o outro chinês, da gaiola, comia a polenta grudada no meio dos dedos. (O lavador sabia as partes macias do meu corpo. Entrou no banheiro já pedindo um beijinho rápido, enquanto o rádio tocava Ivan Lins, vinte e oito facadas antes do meu rosto secar. Continuei a lavagem do cabelo da velha, tirei todo o creme e pedi para esperar o corte). O gordo disse que estava uma delícia. O chinês falando que o pássaro aparecia às vezes faltando um dedinho, por último sem uma perna, ressaltando a gaiola limpíssima, a hipótese dele era que o animal arrancava as partes sozinho, mas não podia encontrar um motivo específico, o chinês. Fiquei interessado no chinês do meio, com medo do outro. O morcegão não acredita numa palavra de nada. Todos os dias alguém lava este lugar por causa do gordo. (A velha com o cabelo seco gosta do Ivan Lins, contou toda uma árvore genealógica dos Lins em novelas e espiritualidade. Eu não poupava o atrito dos meus dentes mergulhando os dedos nos cabelos sedosos). O chinês da ponta arrancou todas as unhas das mãos. Dava uma aflição aquilo, recuava meus toques porque sentia em mim, no fundo, numa bolinha quatro dedos acima do umbigo. Mas os pares foram feitos, eu e o chinês do meio, o gordo e o da ponta, o morcegão e o cara de capa que chora, e chorará mais porque ficou pior. O chinês ficou relembrando o pássaro, e rindo. Eu disse que acreditava demais naquela história de mutilações. Não era mentira, fiquei corrosivo. (O salão foi fechado, eu fui o sacana). Tenho, porque não, sete dedos, contando as duas mãos. O chinês revelou que ele mesmo arrancava os dedinhos do pássaro, o meu amigão dentre os noventa. Não posso dizer que me faz bem ficar aqui. O morcegão grita a noite inteira.

October 20, 2011

Beruf

O bolo ficou um pouco queimado. Albuquerque reagiu no ato. Logo após a primeira mordida disse que estava horrível, que nunca mais voltaria, que onde já tinha se visto etc. O Mendes apenas confirmou que estava queimado, não saindo do óbvio como a boa educação se manifesta. O Michele foi irônico. O Édice procurou cuspir a primeira dentada no guardanapo de pano, sua barba avermelhada ficando cheia de cascas enegrecidas. Aquele café da tarde ficou horrível. Se liga, depois disso não podíamos mais ficar calmos. Circunspectos, jamais. Brilhante. Nada mais andou depois da pequena refeição. Logicamente o Albuquerque quis ir embora, precisei abraçá-lo e convencê-lo com cuidado, como uma mãe. Os papéis iam se invertendo aos poucos, mas freneticamente de acordo com os humores. Se o Édice era estúpido, por exemplo, o Michele se fazia amável e  contemporizador, logo em seguida trocavam, organicamente, sem acordos. Quando percebi essa coisa vi o teatro do nosso encontro na minha residência, fiquei perdido sendo o líder, mas era confortável ser consolado logo em seguida, até mesmo mimado. Quando alguém quis leite e a maioria se prontificou a prepará-lo percebemos a farsa. Não conseguiríamos nada com essas atitudes de jogos emocionais. Antes éramos tão pragmáticos e diretos, mas nessas duas ou três horas uma intimidade cansativa, modorrenta mesmo, acabou com qualquer acordo moral que mantinha algo de masculino ou de grego, como dizíamos, no grupo. Fiquei muito encabulado quando o Mendes arrumou a gola da minha camisa como se fosse o macacãozinho de um bebê.

October 20, 2011
October 18, 2011   1 note

Cosmo

Hoje ficamos velhos. Sem um abismo que nos afligisse almoçamos cordialmente. As mulheres ficaram ofuscadas com a tua beleza. O restaurante vegetariano com os seus seres pardos. Nós ovíparos meditando todas as carnes. E a beleza contida essencialmente nos teus olhares, pacificando todo um hemisfério terrestre. Nem por uma tonelada de ouro eu trocaria de lugar. À sua frente, vendo o sol colar-se ao teu rosto e deixar as tuas pupilas mais cristalinas. Ficamos velhos e seguros porque juntos guardamos por horas o segredo do lugar mais raso para a travessia. Sabemos onde estamos.

VII11

October 17, 2011   1 note

amore spajausta

September 1, 2011   1 note
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Curley Weaver - You was born to die

August 18, 2011
August 12, 2011

O sonho do leme aos pedaços

Eu bebi toda aquela cerveja e saí ileso. É difícil para eles aceitarem isso. Pedi, então, para fazerem um esforço de entendimento porque se tratava da pura verdade. Tomaram-me por vadio e mentiroso, malandro. Eu saía do ar. Com as unhas estranhamente curtas e estreitas os dedos do da esquerda pareciam pequenos pênis. Troquei todo o certo pelo duvidoso. Quando notei que havia um sutil acordo entre eles, que não conseguiam segurar em segredo, fui marchando para a praia estreita onde uma espécie de nuvem castigava o mar indolente. Um mar incrivelmente fraco. Eu sentia vergonha da água. Eles me perseguiam como um choro dissimulado. E eu: eu bebi tudo, seus idiotas. Mas ao insultá-los meu corpo já estava pequenininho e enrugado como uma banana passa.   

August 11, 2011

Anemia

O impressionante não era que o juiz era um espantalho, mas que ele tomava decisões coerentes.

O saco de estopa na cabeça. Art Juice era o nome dele de verdade.  Reverendíssimo juiz. Citava Homero nas sentenças. Ele não era propriamente um homossexual antes das dezoito horas.

Um dia ele foi trabalhar e afugentou todos os jurados. Os frutos foram colhidos mais tarde. O juiz substituto: um Judas de estopa e pano finíssimo.

A galera pirou, na hora.