Clube
Na piscina com os dentes frontais esmigalhados pela borda, vi meu sangue em linhas, filetes, teia, flutuar feito um escarro. O nome disso poderia ser tragédia anunciada, espiritismo de porco. Porque se pode escolher muito pouco. São os entraves lógicos. Por exemplo, a noite subtraindo o dia enquanto uma selva de sorrisos de bocas freqüenta os ambientes mais iluminados da rua. É agora, enquanto conto. O veneno nesses casos lógicos é se permitir lesado, o mesmo que estar disposto, em alvo, à memória. Não há muita inteligência em ir ao perigo, muito menos quando o cretinismo assola o teu sangue, à imagem de um rio morto. É um trabalho de alçapão, a memória. É como nunca fazer o possível sobre uma urgência qualquer da qual depende parte dos seus próximos dias. É como deteriorar a carcaça com uma alimentação suja e porca que te faz dormir como quem desiste. Eu identifiquei o meu sangue por toda parte, com as crianças saindo apressadas da água, e uma senhora de azul pedia pelo amor de deus para o Julinho sair da água imediatamente. Fiquei vidrado no copo de coca com rodelas de limão e gelo que ela trazia junto à barriga de burro. Se você já viu um burro sabe do que estou falando. Era a dona Célia, depois eu soube. Depois de muito talco e amenidades na enfermaria. Eu não tinha aids, eu tinha um pouco de hanseníase, muito bem disfarçada no exame médico do clube. Mas lepra não pega em crianças, eu li a Bíblia. Pupilas de dragão, não há por onde. O salva-vidas trouxe-me uma toalha branca , e a pressão da sua mão antes da toalha contra a minha boca me fez perceber como se constrói uma história. Fiquei em silêncio com os olhos bem abertos, tentei rir mas doeu como um rasgo. As crianças me cercaram, algumas com as mãos nas cinturas, molhadas, torcendo as sobrancelhas, entortando a cabeça para ver melhor. Gesticulavam apontando na altura dos dentes. Tapavam a boca, chacoalhavam as mãos com os dedos moles. Outras pulavam como pagãos num sacrifício com sangue e fogo. Uma, pude ver, aproveitou o recesso da agitação aquática para tomar yakult e comer bolachas recheadas. O Julinho deitou perto da mamãe. Acontecia alguma coisa ruim comigo e o registro das dores que eu sentia podia transformar-se, naquela hora, num tipo de caldo primordial, alimento para muitas das criancinhas que dividiram a piscina comigo durante aquela manhã de quarta-feira. Conto porque é lógico. Fiquei três horas deitado numa maca, o bastante para crer ter perdido a capacidade da fala. Uma enfermeira inepta para a profissão ignorou completamente a minha personalidade, o fato de estar encarnado ali e possuir um nome e ter perdido três dentes e meio em cima e dois embaixo, totalizando cinco dentes e meio que não voltariam mais. Pelos gritos que comecei a ouvir duas horas depois do acidente, algumas crianças encontraram os dentes inteiros e pedaços dentro da piscina. O próprio Julinho chorou por não ter encontrado nada. Chorou gritando até vomitar o antepasto viscoso cheio de água da piscina, então dona Célia veio propor que eu doasse um dente, apenas um, ou qualquer coisa minha que o valha, ao Julinho, coisa de criança, porque a maioria das outras estavam alucinadas com minhas referencias materiais, psicológicas ou espirituais, algumas encenavam o acidente e tudo o que aconteceu depois, outras se faziam respeitar e respondiam pelo meu nome, quando não uma menor que as outras, tratou assumir meus trejeitos de olhar, andar e eventual gagueira, o que sabia fazer perfeitamente. Sorri com as gengivas machucadas, com uma vulva aberta no lábio superior. Dona Célia fez uma enorme cara de nojo, e virou o rosto do Julinho empurrando-o com a barrigona para fora da salinha improvisada de enfermaria, branca e azul, como tudo o mais no clube Sol do Tito. A enfermeira me ofereceu quarenta gotas de dipirona, aceitei, amém mas caprichei no chorinho quando a massa branca de avental virou as costas. Dormi feito um lince na pradaria antes de sentir-me cutucado na panturrilha. Um garoto muito feio disse estar me cutucando há horas. Respondi que não sentia nada em alguns pontos da pele das costas. Ele achou o máximo e disse chamar-se Fabio. Perguntou o que eu fiz para não sentir dores nas costas porque ele mesmo adoraria a armadura, disse a ele que freqüentei muitos banheiros públicos nos anos noventa, é o que a gente ganha. Percebi que o garoto era um tipo de informante cuidadosamente escolhido para aquele interrogatório, estava a serviço da legião que por àquela hora já deveria estar tirando o cloro do corpo com os olhinhos vermelhos, prontos para partir para os videogames nas casas com cheiro de pão de forma tostado. De certo que alguns estariam sonolentos e meio sonâmbulos enrolados em toalhas com pequenos capuzes com orelhas de gato ou chifres, o que dá o mesmo efeito. Eu conto porque parecia lógico. Já sentia meu rosto inteiro formigando, latejando e presumia o hematoma e inchaço que me desfiguravam. Meus lábios pesavam feito um punho morto e tanto fazia para o garoto aquele horror. Estava treinado pelos outros. Acreditei que parte daquilo tudo era orquestrada pela dona Célia e a enfermeira mas desisti dessa linha de ação quando o garoto perguntou o meu nome de batismo, demonstrando que sabia que o nome escrito na minha ficha, e em todas as fichas desde cinco anos atrás não era o meu nome de batismo. Disse, Celso Correa Soares, minha condição pronunciou os ésses de maneira sofrível. O garoto com a face séria. Eu via meio de lado porque estava quase totalmente virado para a parede, a posição que mais gosto para dormir. Do nada o garoto sorriu e lançou contra o meu rim um estalado tapa com força desgraçadamente superior ao que esperava de uma criança cansada de nadar. Um tapa no rim, bem onde não tenho lepra. Bem onde dói por minutos a fio. Eu soprei baixinho e disse que era um desgraçado de capeta, mas o d e o p machucaram muito a minha boca. Cuspi sangue com saliva na parede crocante. Quando a enfermeira voltou já estava à paisana, pronta para fechar tudo e ir para a Zona Leste. Eu de sunga. Inchado. Lacrimejava de dor na boca, a enfermeira à paisana sentiu pena da figura que eu representava. Caridosa. Senti fúria e falei cuspindo sem o controle da bocona. Eu era uma pessoa diferente com aquele ferimento. Logicamente não fazia nenhum sentido tratar a enfermeira mal, posto que sem o uniforme a pobre se mostrou tão amigável e sedutora, talvez. Saímos juntos da salinha, ela disse que tinha uma coisa muito especial me esperando lá fora. Caminhamos, eu descalço, até o estacionamento de cascalho e areia de construção. Meus pés doíam e não havia mais nenhuma luz no céu. Um poste com luz fraca ajudava a distinguir o meu carro encostado a um barranco com dois tocos enormes ao lado da porta do passageiro. Tocos cozidos, enzinabrados, como se saídos de alguma encosta na Normandia, carregados de fungos. Divisei apertando os olhos contra o meu próprio rosto, a enfermeira à paisana emudecida me constrangia como um incêndio. Basicamente não fazia sentido algum pensar no que pensei àquele momento, mas eu estava envelhecendo ali. Lembrava-me da segunda vez que senti o envelhecimento dentro do corpo, quando contemplei um cachorro cheio de carrapatos gordos e marrons. Eu estava envelhecendo progressivamente no caminho de volta ao carro sem nenhuma curiosidade acerca do que me esperava de tão especial. Eu estava envelhecendo sem nenhuma promessa. A enfermeira segurou meu dedo polegar, olhou para o meu peito desnudo e disse algo como “aproveita”. Senti as feridas com a língua de lixa que o cigarro me dera. Que lindo. Continuei andando, no meu carro Julinho e dona Célia me esperavam para me levarem para casa. Relutei, orei, não eram tocos, disse que era impossível. Julinho chorou. Eu vomitei com as mãos no joelho diante de tanto e inconcebível transtorno. Com um frio de sunga. Com um gosto de dipirona na boca. Com um tremor por causa dos espasmos do vômito. Não sou um entusiasta da burrice, mas se conto agora é porque me parece lógico, e nenhuma luz faz sombra à 45º aqui neste estabelecimento respeitável onde por hora me abrigo. Mas o caso é que o Julinho, filho de dona Célia, era muito parecido com o Fabio. Aceitei o convite, fui com eles.
